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Friday, June 29, 2012

Quinze Anos


Eu amo a vasta sombra das montanhas, 
Que estendem sobre os largos continentes 
Os seus braços de rocha negra, ingentes, 
Bem como braços colossais aranhas. 

D'ali o nosso olhar vê tão estranhas 
Coisas, por esse céu! e tão ardentes 
Visões, lá n'esse mar de ondas trementes! 
E às estrelas, d'ali, vê-as tamanhas!


Amo a grandeza misteriosa e vasta... 
A grande ideia, como a flor e o viço 
Da árvore colossal que nos domina... 

Mas tu, criança, sê tu boa... e basta: 
Sabe amar e sorrir... é pouco isso? 
Mas a ti só te quero pequenina! 

- Antero de Quental

Saturday, March 24, 2012

I Have A Rendezvous With Death


I have a rendezvous with Death
At some disputed barricade,
When Spring comes back with rustling shade
And apple-blossoms fill the air—
I have a rendezvous with Death
When Spring brings back blue days and fair.
 
 
It may be he shall take my hand
And lead me into his dark land
And close my eyes and quench my breath—
It may be I shall pass him still.
I have a rendezvous with Death
On some scarred slope of battered hill
When Spring comes round again this year
And the first meadow-flowers appear.


God knows 'twere better to be deep
Pillowed in silk and scented down,
Where Love throbs out in blissful sleep,
Pulse nigh to pulse, and breath to breath,
Where hushed awakenings are dear...
But I've a rendezvous with Death
At midnight in some flaming town,
When Spring trips north again this year,
And I to my pledged word am true,
I shall not fail that rendezvous. 
 
- Alan Seeger
 

Wednesday, November 16, 2011

In Childhood - a japanese poem


Things don't die or remain damaged
but return: stumps grow back hands,
a head reconnects to a neck,
a whole corpse rises blushing and newly elastic.
Later this vision is not True:
the grandmother remains dead
not hibernating in a wolf's belly.
Or the blue parakeet does not return
from the little grave in the fern garden
though one may wake in the morning
thinking mother's call is the bird.
Or maybe the bird is with grandmother
inside light. Or grandmother was the bird
and is now the dog
gnawing on the chair leg.
Where do the gone things go
when the child is old enough
to walk herself to school,
her playmates already
pumping so high the swing hiccups?

- Kimiko Hahn

Saturday, November 5, 2011

I Know Why The Caged Bird Sings


The free bird leaps
on the back of the win
and floats downstream
till the current ends
and dips his wings
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with fearful trill
of the things unknown
but longed for still
and is tune is heard
on the distant hill-for the caged bird
sings of freedom

The free bird thinks of another breeze
an the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn-bright lawn
and he names the sky his own.

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

- Maya Angelou 

Friday, November 4, 2011

Ode ao Gato


Os animais foram imperfeitos, 
compridos de rabo,tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, 
fazendo-se paisagem, adquirindo pintas, graça vôo.
O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato quer ser só gato
e todo gato é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.
Não há unidade como ele, não tem a lua nem a flor
tal contextura: é uma coisa só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos deixaram uma só ranhura
para jogar as moedas da noite.


Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria, mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu das telhas eróticas, o vento do amor
na intempérie reclamas quando passas e pousas
quatro pés delicados no solo, cheirando, desconfiando
de todo o terrestre, porque tudo é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente da casa, arrogante
vestígio da noite, preguiçoso, ginástico
e alheio, profundíssimo gato, polícia secreta
dos quartos, insígnia de um desaparecido veludo,
certamente não há enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério, 
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso 
talvez todos acreditem, todos se acreditem donos,
proprietários, tios de gato, companheiros,
colegas, discípulos ou amigos do seu gato.
Eu não. Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.

- Pablo Neruda


Sunday, October 30, 2011

Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

- Antero de Quental

Wednesday, October 26, 2011

Fuga


O músico procura
Fixar em cada verso
O cântico disperso
Na luz, na água e no vento.

Porém, luz, vento e água
Variam riso e mágoa,
De momento a momento.

E em vão a área dos dedos
Se eleva! Não traduz
Os súbitos segredos
Escondidos no vento,
Nas águas e na luz...

- Pedro Homem de Mello
 

Tuesday, September 27, 2011

Winter


Clouded with snow
The cold winds blow,
And shrill on leafless bough
The robin with its burning breast
Alone sings now.

The rayless sun,
Day's journey done,
Sheds its last ebbing light
On fields in leagues of beauty spread
Unearthly white.

Thick draws the dark,
And spark by spark,
The frost-fires kindle, and soon
Over that sea of frozen foam
Floats the white moon.

- Walter de la Mare

Sunday, September 11, 2011

Destino


à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

- Mia Couto

Contemplação


Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...

- Antero de Quental
 

Thursday, August 18, 2011

Nature is what we see

 
"Nature" is what we see --
The Hill -- the Afternoon --
Squirrel -- Eclipse -- the Bumble bee --
Nay -- Nature is Heaven --
Nature is what we hear --
The Bobolink -- the Sea --
Thunder -- the Cricket --
Nay -- Nature is Harmony --
Nature is what we know --
Yet have no art to say --
So impotent Our Wisdom is
To her Simplicity. 

- Emily Dickinson

Sunday, August 7, 2011

Munashiki ga goto


                世の中は                               Yo no naka wa
                何にたとへん                        nani ni tatoen
                山彦の                                    yamabiko no
                こたふる聲の                        kotauru koe no
                空しきがごと                        munashiki ga goto

Our life in this world -
to what shall I compare it?
Its like an echo
resounding through the mountains
and off into the empty sky.

- Monk Ryokan ( 良寛 )

Wednesday, June 29, 2011

Durmo ou não?

Durmo ou não? Passam juntas em minha alma 
Coisas da alma e da vida em confusão, 
Nesta mistura atribulada e calma 
Em que não sei se durmo ou não.

Sou dois seres e duas consciências 
Como dois homens indo braço-dado. 
Sonolento revolvo omnisciências, 
Turbulentamente estagnado. 

Mas, lento, vago, emerjo de meu dois. 
Disperto. Enfim: sou um, na realidade. 
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois, 
De quê, esta vaga saudade? 

-Fernando Pessoa

Tuesday, June 28, 2011

Para ser grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim, em cada lago, a lua toda
Brilha, porque alta vive

- Ricardo Reis ( heterónimo de Fernando Pessoa)

Chamo-Te


Chamo-te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido. 
Peço-te que venhas e me dês a liberdade, 
Que um só de teus olhares me purifique e acabe. 
Há muitas coisas que não quero ver. 
Peço-te que sejas o presente. 
Peço-te que inundes tudo. 
E que o teu reino antes do tempo venha 
E se derrame sobre a terra em Primavera feroz precipitado. 

- Sophia de Mello Breyner Andresen

Sunday, June 12, 2011

Princesa Desalento


Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!

É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento...

Altas horas da noite ela vagueia...
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta... 

- Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Thursday, June 2, 2011

Humpty Dumpty


Humpty Dumpty sat on a wall,
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king's horses and all the king's men
Couldn't put Humpty together again.

- Lewis Carrol 

Saturday, May 14, 2011

Terror de Te Amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas. 

Saturday, May 7, 2011

Retrato de uma princesa desconhecida


Para que ela tivesse um pescoço tão fino 
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos 
Para que a sua espinha fosse tão direita 
E ela usasse a cabeça tão erguida 
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos 
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes 
Ainda um pouco toscos e grosseiros 
Ávidos cruéis e fraudulentos 
Foi um imenso desperdiçar de gente 
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Tuesday, April 26, 2011

The Power of my Dreams


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre terminou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias. 


Despite the wreckage and death,
Where always ended each illusion,
The power of my dreams is so strong,
That everything is reborn to exaltation
And my hands are never empty.